Rodrigo, Divisão 9 e a voz que me fez continuar no Airsoft: uma história de inspiração, propósito e gratidão
Da descoberta do esporte em 2012 à criação da Divisão 9, Rodrigo construiu uma trajetória marcada pela produção de conteúdo, pelo incentivo aos iniciantes e pela vontade de contribuir para o crescimento…
Da descoberta do esporte em 2012 à criação da Divisão 9, Rodrigo construiu uma trajetória marcada pela produção de conteúdo, pelo incentivo aos iniciantes e pela vontade de contribuir para o crescimento do Airsoft brasileiro. Em uma conversa especial com o CombatGame, conhecemos não apenas a história de uma equipe, mas também o homem por trás de uma das vozes que ajudaram a apresentar o esporte a milhares de pessoas.
Por CombatGame
Existem pessoas que entram na nossa vida sem sequer saber o tamanho da influência que terão sobre ela. Pessoas que, por meio de suas palavras, atitudes e experiências, acabam nos mostrando caminhos que talvez não conseguíssemos enxergar sozinhos. No Airsoft, minha história também foi marcada por uma dessas pessoas.
Quando comecei a estruturar o Portal CombatGame, em 2023, ainda estava dando meus primeiros passos dentro desse universo. Tinha dúvidas, ideias, vontade de fazer acontecer e, principalmente, uma enorme paixão pelo esporte. Naquele período, os vídeos, os conteúdos e a maneira como Rodrigo e toda a equipe da Divisão 9 apresentavam o Airsoft foram muito mais do que uma referência para mim. Foram inspiração.
Eu acompanhava aquele trabalho com frequência. Aprendia, buscava informações e encontrava respostas para dúvidas que surgiam enquanto tentava compreender melhor o esporte. Muitas vezes, o conteúdo que chegava pela tela do computador era justamente aquilo que eu precisava para continuar. Por isso, poder finalmente conversar com Rodrigo, ouvir sua história diretamente dele e conduzir essa entrevista foi muito mais do que realizar uma reportagem. Foi uma oportunidade de agradecer.
E talvez seja justamente por isso que esta matéria tenha um significado tão especial para mim. Antes de falar sobre a trajetória de uma equipe, existe aqui o reconhecimento de alguém que, mesmo sem saber, ajudou outra pessoa a encontrar seu próprio caminho dentro do Airsoft. Esta é a história de Rodrigo, da Divisão 9 e de um trabalho que ultrapassou os limites de um canal de vídeos para alcançar pessoas, construir amizades e contribuir com o desenvolvimento do esporte brasileiro.
Uma descoberta inesperada: como Rodrigo chegou ao Airsoft em 2012
Ao observar aquelas pessoas equipadas, movimentando-se pelo cenário e simulando situações de combate, teve a sensação de estar assistindo a algo muito próximo dos jogos que costumava acompanhar. A curiosidade foi imediata.
Rodrigo começou a procurar informações sobre a modalidade. Entretanto, estamos falando de uma época em que o acesso ao conteúdo sobre Airsoft no Brasil era bastante limitado. Fóruns estavam desativados, informações eram difíceis de encontrar e a comunidade ainda não contava com a quantidade de conteúdos disponíveis atualmente. Ele passou aproximadamente três meses tentando descobrir como participar de uma partida. Sem conseguir avançar, acabou deixando a ideia de lado.
Até que uma conversa aparentemente comum mudou tudo. Durante um encontro com um amigo em uma creperia, Rodrigo descobriu que aquele conhecido, até então apaixonado por paintball, havia abandonado a modalidade e começado a praticar Airsoft. O detalhe chamou sua atenção. Era justamente o esporte que ele procurava havia meses. O amigo jogava pela equipe Black Death e acabou sendo responsável por apresentar Rodrigo ao ambiente que mudaria sua rotina nos anos seguintes.
Antes mesmo de participar de sua primeira partida, Rodrigo já havia comprado uma AEG pela internet. Aproveitou uma viagem aos Estados Unidos para adquirir óculos de proteção e outros equipamentos, ainda sem conhecer exatamente aquilo de que precisava. A empolgação, entretanto, não garantiu uma boa primeira experiência.
O primeiro jogo foi uma decepção. Rodrigo relembra que levou um disparo diretamente na testa logo no início da experiência. A dor e a falta de familiaridade com a dinâmica do esporte fizeram com que considerasse aquela primeira partida uma experiência horrível. Chegou a pensar no que faria com o equipamento que havia comprado. Mas decidiu tentar novamente.
O segundo jogo já foi melhor. No terceiro, a percepção havia mudado completamente. Aquilo que inicialmente parecia uma experiência ruim começou a se transformar em uma paixão. Anos depois, Rodrigo estaria não apenas participando de partidas, mas também produzindo conteúdos que ajudariam outras pessoas a descobrir o mesmo esporte. Às vezes, uma trajetória inteira começa com uma simples curiosidade e a decisão de dar uma segunda oportunidade.
Do Rodrigo Airsoft à Divisão 9: uma nova etapa começa em 2020
A relação de Rodrigo com a produção de conteúdo começou em 2014, quando criou seu canal no YouTube, inicialmente chamado Rodrigo Airsoft. Naquele período, sua participação na equipe GSG 9 era bastante presente em suas atividades. Como produzia muitos vídeos ao lado dos integrantes, percebeu que o nome pessoal do canal acabava se misturando com a identidade da equipe. Foi então que aconteceu a primeira mudança: Rodrigo Airsoft passou a se chamar GSG 9 Airsoft.
Durante essa fase, Rodrigo acumulou experiências, participou de partidas e desenvolveu uma relação cada vez mais próxima com a produção de vídeos e com a comunidade. Com o passar do tempo, entretanto, começou a sentir necessidade de desenvolver projetos próprios. Durante a entrevista, fez questão de esclarecer que nunca ocupou a posição de líder principal da GSG 9 e que sempre respeitou a hierarquia e as decisões de quem estava à frente da equipe.
Existiam ideias que gostaria de implementar, projetos que pretendia desenvolver e caminhos que acreditava serem interessantes para o grupo. Entretanto, algumas dessas iniciativas encontravam dificuldades para avançar dentro da estrutura existente. A decisão de sair não foi resultado de uma grande discussão ou de uma ruptura marcada por conflitos pessoais.
Rodrigo contou que chegou a comunicar sua intenção de deixar a equipe em janeiro de 2020. Na ocasião, o capitão pediu que reconsiderasse a decisão. Ele aceitou aguardar, mas, com a chegada da pandemia, voltou a conversar sobre o assunto em maio daquele ano. A necessidade de ter autonomia para conduzir seus projetos acabou falando mais alto. O canal voltou temporariamente ao nome Rodrigo Airsoft. E, em 30 de junho de 2020, nasceu oficialmente a Divisão 9 Airsoft.
Mas existe um detalhe dessa história que merece atenção.
A Divisão 9 nasceu também da confiança de outras pessoas
Inicialmente, Rodrigo não pretendia criar uma nova equipe. Sua ideia era seguir sozinho, desenvolver seus projetos e continuar participando das partidas sem necessariamente assumir a responsabilidade de organizar um novo grupo. Entretanto, aproximadamente oito pessoas que faziam parte da antiga equipe manifestaram a intenção de acompanhá-lo após sua saída. Algumas chegaram a dizer que, se Rodrigo estava deixando a equipe, também gostariam de seguir outro caminho.
Ele próprio contou que precisou conversar com essas pessoas e deixar claro que a decisão deveria ser delas, não uma atitude tomada simplesmente por sua causa. A situação fez com que reconsiderasse seus planos. Rodrigo percebeu que não poderia simplesmente reunir aquelas pessoas aos domingos para jogar sem oferecer uma identidade e uma referência para o grupo. Como seriam apresentados nas organizações de jogos? Qual seria o nome da equipe? Como aquelas pessoas seriam reconhecidas?
Foi nesse contexto que começou a trabalhar na construção da Divisão 9. Mais do que desenvolver uma marca, precisou assumir uma responsabilidade que inicialmente nem estava em seus planos. A criação da equipe foi, portanto, também uma consequência da confiança que outras pessoas depositaram nele.
Por que Divisão 9? A escolha de um nome e uma identidade própria
A escolha do nome também carrega elementos da trajetória de Rodrigo. O número 9 já fazia parte de sua história desde os tempos da GSG 9. Era uma referência com a qual estava familiarizado e que decidiu preservar. Entre as possibilidades consideradas estavam nomes como Unidade 9, Esquadrão 9 e Division Nine. A escolha de uma expressão em português, porém, teve uma razão bastante prática.
Rodrigo participa de jogos e eventos em diferentes regiões do Brasil. Por isso, queria um nome que fosse fácil de pronunciar, reconhecer e memorizar, independentemente do estado ou da cidade onde a equipe estivesse. Assim surgiu a Divisão 9. A identidade visual também foi desenvolvida cuidadosamente. Rodrigo contou que levou aproximadamente 20 dias trabalhando na construção da marca, em parceria com seu amigo e designer Douglas, conhecido como DG. Esse é um dos momentos mais delicados da história.
Douglas faleceu durante a pandemia de COVID-19, deixando uma marca profunda na vida pessoal de Rodrigo. Durante a entrevista, ele compartilhou a dificuldade de enfrentar aquela perda e relatou que precisou de acompanhamento médico e tratamento naquele período. A lembrança do amigo está diretamente ligada à construção da identidade visual da Divisão 9.
A marca, portanto, representa muito mais do que uma identificação utilizada em uniformes, equipamentos e materiais de divulgação. Ela também carrega a memória de alguém que participou de sua criação. Rodrigo explicou que sempre valorizou uma identidade visual versátil, que não ficasse presa a uma única estrutura ou formato. A Divisão 9 foi pensada para funcionar na vertical, na horizontal, com o nome completo ou utilizando apenas o número.
Essa liberdade de aplicação permite que a equipe mantenha sua identificação em diferentes materiais sem perder o reconhecimento visual. No dia 30 de junho de 2020, após concluir o planejamento, Rodrigo apresentou oficialmente a proposta aos primeiros integrantes. Até aquele momento, muitos deles sequer sabiam exatamente o que estava sendo preparado. Era o início de uma nova história.
Uma equipe construída por pessoas, não por jogadores perfeitos
Um dos momentos mais interessantes da entrevista aconteceu quando conversamos sobre a formação da Divisão 9. Em um esporte no qual muitas equipes valorizam desempenho, experiência, habilidade técnica e capacidade operacional, Rodrigo apresentou uma visão bastante particular. Para ele, não é necessário encontrar o melhor jogador para construir uma boa equipe. É necessário encontrar as pessoas certas.
Durante a conversa, explicou que nunca adotou um processo tradicional de recrutamento baseado exclusivamente em testes ou desempenho dentro de campo. A aproximação acontece naturalmente. A pessoa começa a jogar com o grupo, participa das atividades, conversa com os integrantes e, aos poucos, todos passam a conhecer melhor seu comportamento dentro e fora das partidas. Esse processo pode levar três meses, seis meses ou até um ano.
A questão principal não é a velocidade com que alguém aprende a jogar, mas a identificação com os valores e a convivência da equipe. Rodrigo resumiu sua filosofia de maneira bastante direta: “Você não tem que ser o melhor jogador para estar na Divisão 9. Você não tem que ser o Rambo, você não tem que ser o Navy SEAL. Não é isso que eu quero.” A preocupação está em construir um grupo que se respeite, que tenha harmonia e que consiga estabelecer relações verdadeiras.
Ele também destacou a importância da inteligência emocional. Cada pessoa tem uma personalidade, uma maneira de se comunicar e uma forma diferente de lidar com situações. Saber conviver com essas diferenças exige maturidade. Atualmente, a equipe mantém aproximadamente 11 a 12 operadores ativos e costuma se reunir aos domingos para participar de jogos abertos e fechados.
Rodrigo também explicou que não considera necessário transformar a equipe em uma estrutura militarizada, com treinamentos obrigatórios, cobranças excessivas ou formalidades que não correspondam à proposta do grupo. Para ele, o Airsoft deve ser uma atividade que proporcione diversão, amizade e convivência. Isso não significa ausência de compromisso. Significa compreender que cada integrante possui trabalho, família e responsabilidades que precisam ser respeitadas.
Um exemplo citado durante a entrevista foi o de um antigo companheiro que, depois de anos jogando com Rodrigo, decidiu se dedicar a outro esporte, o monociclo. A amizade continuou. O contato permanece frequente, mas ele deixou a equipe porque já não participava das atividades. A separação entre amizade e participação no grupo é algo que Rodrigo considera importante. Afinal, ninguém precisa deixar de ser amigo porque decidiu seguir outro caminho.
O que realmente diferencia a Divisão 9?
Quando perguntei a Rodrigo o que acreditava diferenciar a Divisão 9 das outras equipes, a resposta foi bastante interessante. Ele não tentou apresentar o grupo como superior, mais preparado ou mais habilidoso do que os demais. Pelo contrário. Disse que seria narcisismo tentar estabelecer esse tipo de comparação. Sua resposta foi: “Eu acho que o que diferencia a Divisão 9 das outras equipes é que eu filmo e mostro tudo o que a gente faz.” Essa declaração revela muito sobre o posicionamento do projeto.
A proposta é compartilhar experiências, mostrar os bastidores, registrar as partidas e permitir que as pessoas conheçam não apenas o desempenho dentro do campo, mas também a convivência fora dele. Rodrigo não se coloca em uma posição de superioridade em relação a outros jogadores e acredita que as demais equipes também são formadas por pessoas que compartilham amizades e experiências. O diferencial está na maneira como documenta e apresenta essa trajetória ao público.
Existe ainda uma preocupação importante com a imagem que a equipe transmite. Rodrigo explicou que orienta seus integrantes a evitarem discussões, confrontos verbais e atitudes que possam prejudicar a convivência nos eventos. A responsabilidade aumenta quando se considera que muitas pessoas acompanham a Divisão 9 pela internet e acabam criando uma relação de proximidade com seus integrantes.
Ele explicou que, quando alguém encontra um operador da equipe pessoalmente, muitas vezes já sente que conhece aquela pessoa há bastante tempo. Por isso, cobra que todos sejam educados e receptivos. Uma das orientações que transmite aos integrantes é simples: tratar as pessoas com o mesmo respeito e consideração que elas demonstram ao encontrar a equipe. Não existe espaço para arrogância.
Para Rodrigo, quem acompanha o trabalho da Divisão 9 merece ser recebido com atenção, independentemente de sua experiência ou posição dentro do Airsoft.
A responsabilidade de representar uma equipe também fora do campo
A entrevista revelou que Rodrigo possui uma preocupação constante com o comportamento dos integrantes da Divisão 9. Ele entende que a representação de uma equipe não começa apenas quando a partida é iniciada. Começa muito antes. Desde o momento em que alguém chega ao campo, abre o porta-malas do carro e começa a preparar seus equipamentos, existem pessoas observando. Essa percepção faz parte das orientações que transmite aos operadores. A equipe precisa ser exemplo daquilo que defende.
Não adianta produzir conteúdo sobre respeito, amizade e fair play se, na prática, os integrantes apresentam comportamentos completamente diferentes. Rodrigo também explicou que prefere evitar discussões durante as partidas, inclusive em situações envolvendo possíveis problemas de conduta. Em sua visão, transformar uma divergência em um confronto pode acabar prejudicando a experiência de todos.
Isso não significa ignorar comportamentos inadequados, mas compreender quando é necessário conversar, orientar ou simplesmente seguir em frente. A postura demonstra uma preocupação que ultrapassa os resultados de uma partida. O objetivo é preservar a experiência coletiva e a imagem construída pela equipe ao longo dos anos.
Quando o Airsoft se transforma em uma oportunidade de mudar vidas
Talvez um dos momentos mais emocionantes da entrevista tenha sido quando conversamos sobre o impacto que os conteúdos da Divisão 9 tiveram na vida de outras pessoas. Para Rodrigo, o reconhecimento mais importante não está necessariamente nos números de visualizações, inscritos ou seguidores. Está nas mensagens recebidas. Ele contou que, ao longo dos anos, recebeu diversos relatos de pessoas que encontraram no Airsoft uma nova perspectiva de vida.
Entre essas histórias estão pessoas que enfrentavam períodos de depressão, dificuldades pessoais e problemas relacionados ao uso de drogas. Segundo Rodrigo, algumas dessas pessoas começaram a acompanhar os vídeos, conheceram o esporte e passaram a participar das partidas. Em determinados casos, a aproximação com a comunidade representou um ponto de mudança em suas rotinas.
Uma das passagens mais marcantes foi quando relatou que algumas pessoas disseram ter encontrado felicidade até mesmo acompanhando os momentos de descontração da equipe nos vídeos de pré-jogo e pós-jogo. Uma delas teria relatado que, mesmo sem estar participando das partidas, assistir àquela convivência já fazia diferença em seus dias. Rodrigo resumiu a importância desses relatos de maneira bastante emocionante: “E, cara, acabou. Para mim, eu zerei a vida ali.”
É importante compreender que o Airsoft não substitui acompanhamento médico ou psicológico, nem deve ser apresentado como tratamento para condições de saúde. Mas a convivência, o sentimento de pertencimento, as amizades e a possibilidade de participar de uma atividade coletiva podem representar um apoio significativo para pessoas que enfrentam momentos difíceis. E talvez seja justamente aí que o esporte revele uma de suas maiores capacidades. Por trás de cada partida existe uma comunidade.
Por trás de cada vídeo existe a possibilidade de alguém encontrar uma nova perspectiva. E por trás de cada mensagem recebida existe uma história que talvez nunca fosse conhecida se alguém não tivesse decidido compartilhar suas experiências.
O trabalho que ninguém vê: os bastidores da produção de conteúdo
Existe uma percepção comum de que produzir vídeos de Airsoft é simplesmente colocar uma câmera no equipamento, participar da partida e publicar o resultado. A entrevista mostrou uma realidade bem diferente. Rodrigo explicou que um vídeo simples de pré-jogo e pós-jogo pode consumir aproximadamente três ou quatro horas de edição. Já uma gameplay completa pode exigir quase uma semana de trabalho.
São necessárias horas de seleção de imagens, identificação dos melhores momentos, organização dos acontecimentos e construção de uma narrativa com começo, meio e fim. Ele também explicou que procura chegar ao campo com atenção a tudo o que acontece ao redor. Muitas vezes, uma conversa, um encontro inesperado ou uma situação aparentemente comum acaba se transformando em um conteúdo interessante.
Durante a entrevista, citou como exemplo o encontro com um desenvolvedor brasileiro de um sistema HPA. A aproximação aconteceu praticamente por acaso, quando o rapaz estacionou seu veículo próximo ao dele. Ao descobrir o projeto, Rodrigo percebeu a importância de apresentar aquela iniciativa ao público. Esse olhar atento faz parte de seu trabalho.
Ele não procura apenas registrar disparos ou momentos de combate. Procura histórias, novidades e situações que possam acrescentar alguma coisa à experiência de quem acompanha o canal. Outro aspecto interessante é o cuidado com o conteúdo publicado. Rodrigo explicou que procura evitar palavrões e situações ofensivas em seus vídeos, pensando também nas famílias e nas pessoas que assistem ao material acompanhadas de crianças.
Segundo ele, existe uma diferença entre a maneira como alguém conversa com os amigos e a responsabilidade de produzir um conteúdo que será recebido dentro da casa de outras pessoas. Essa preocupação também aparece na edição. Se uma situação ao redor da gameplay apresenta algo que considera inadequado, ele pode optar por retirar aquele trecho. E deixou um conselho interessante para quem deseja começar a editar vídeos: Quando estiver cansado, pare e continue no outro dia.
A razão é simples: quando o editor começa a trabalhar apenas para terminar logo, pode acabar eliminando justamente os momentos que tornam o conteúdo interessante. É um cuidado que demonstra respeito pelo público e pelo próprio trabalho.
A dedicação que existe por trás das câmeras também tem um preço
Outro momento importante da conversa aconteceu quando Rodrigo falou sobre os compromissos relacionados ao Airsoft e o impacto deles na vida familiar. Ele contou que já abriu mão de festas de aniversário, finais de semana e momentos de convivência para cumprir compromissos assumidos com eventos e produção de conteúdo. Em uma das situações relatadas, sua filha havia acabado de nascer e, mesmo assim, ele manteve um compromisso profissional relacionado à divulgação de um evento.
Rodrigo também relatou ocasiões em que precisou escolher entre participar de um evento e estar presente em comemorações familiares. Com o tempo, porém, começou a rever essas decisões. Durante a entrevista, contou que recentemente optou por não viajar para um evento porque a comemoração do aniversário da esposa e da filha coincidiria com a data. A decisão representa uma mudança na maneira como organiza suas prioridades.
Ele reconhece que o Airsoft exige dedicação, viagens, gravações e muitas horas de edição, mas também compreende que existem momentos familiares que não podem ser recuperados. Existe uma realidade que o público nem sempre consegue enxergar. Enquanto alguém acompanha uma gameplay pronta no YouTube, pode não imaginar as horas de trabalho, os deslocamentos, as noites de edição e os compromissos pessoais envolvidos naquela produção.
Rodrigo também comentou sobre a sensação de deixar a família em casa quando precisa viajar para participar de eventos. A expectativa de encontrar amigos, conhecer novos campos e participar de grandes partidas convive com a saudade de casa. E, segundo ele, um dos melhores momentos de qualquer viagem é justamente quando retorna. Não existe melhor lugar do que a própria casa. É uma reflexão simples, mas que mostra o lado humano de alguém que muitas pessoas conhecem apenas pela voz que acompanha seus vídeos.
O futuro do Airsoft brasileiro: crescimento, desafios e a força da indústria nacional
Quando a conversa chegou ao futuro do Airsoft no Brasil, Rodrigo apresentou uma análise bastante interessante. Na sua avaliação, o esporte vem crescendo, mas é importante compreender suas características. O Airsoft não possui a mesma dimensão popular de modalidades como futebol ou vôlei. Trata-se de um nicho esportivo, com uma comunidade que cresce dentro de seu próprio universo. Ele também destacou que existe uma movimentação constante de entrada e saída de praticantes.
Enquanto novas pessoas descobrem o esporte, outras acabam deixando de jogar. Um dos motivos apontados é o custo. Não basta comprar uma AEG. Existem despesas com munições, transporte, alimentação, manutenção, equipamentos de proteção e inscrições nos eventos. Rodrigo explicou que, quando alguém enfrenta dificuldades financeiras, o Airsoft frequentemente acaba sendo uma das primeiras atividades a sofrer cortes no orçamento.
Em algumas situações, o praticante chega a vender seus equipamentos para reorganizar as finanças. Entretanto, ele também enxerga uma transformação positiva. Um dos pontos destacados foi o desenvolvimento de equipamentos e soluções nacionais. Durante a entrevista, mencionou o surgimento de projetos brasileiros relacionados a sistemas HPA e a ampliação das opções de equipamentos disponíveis no mercado nacional.
Na visão de Rodrigo, diminuir a dependência de produtos estrangeiros pode ajudar a tornar o esporte mais acessível. Equipamentos, peças de reposição e soluções desenvolvidas no Brasil podem abrir novas possibilidades para quem deseja começar, mas não possui condições de investir valores muito elevados. Essa observação é especialmente relevante porque o custo de entrada influencia diretamente a capacidade de renovação da comunidade.
Quanto mais acessíveis forem os equipamentos, maiores poderão ser as oportunidades para novos praticantes conhecerem a modalidade. O futuro do Airsoft brasileiro, portanto, também passa pela capacidade de desenvolver soluções próprias, fortalecer fornecedores nacionais e ampliar as possibilidades de acesso ao esporte.
Honestidade e fair play: os princípios que sustentam uma partida
Durante a entrevista, também conversamos sobre honra, disciplina, respeito e fair play. Rodrigo apresentou uma interpretação bastante direta sobre o assunto. Para ele, a honestidade é um dos fundamentos que permitem que o Airsoft exista como modalidade. Uma partida depende da confiança entre os participantes. Diferentemente de outros esportes, em que árbitros e sistemas de pontuação conseguem identificar grande parte das infrações, o Airsoft depende muito da responsabilidade individual de cada jogador.
O reconhecimento de um disparo é um dos exemplos mais claros. Rodrigo explicou que orienta os integrantes da Divisão 9 a não permanecerem em campo quando existe dúvida sobre terem sido atingidos. Sua orientação é objetiva: “Tem dúvida? Sai.” É uma frase simples, mas representa um princípio essencial. O jogador não deve transformar cada disparo em uma discussão ou tentar encontrar justificativas para continuar na partida. A honestidade precisa prevalecer.
Ele também destacou a importância de respeitar os briefings apresentados pelos organizadores. Prestar atenção às regras, compreender os objetivos da missão e conhecer as condições da partida são atitudes fundamentais. Rodrigo considera que ignorar um briefing não representa apenas uma falha individual, mas também uma falta de respeito com quem dedicou tempo para planejar e organizar o evento.
Quando um participante desconhece os objetivos ou as regras, pode prejudicar o andamento da operação e comprometer a experiência dos demais jogadores. Para ele, participar de uma partida significa também assumir o compromisso de respeitar quem está organizando e quem está compartilhando aquele momento em campo. É uma visão que reforça algo importante: o Airsoft não depende apenas de equipamentos e habilidade. Depende, principalmente, da conduta de quem pratica.
Os eventos que marcaram a trajetória da Divisão 9
Ao relembrar os momentos mais importantes de sua trajetória, Rodrigo destacou eventos que ajudaram a construir a história da equipe. Entre eles estão a Airborne 2, realizada em Barbacena, Minas Gerais, e o Ruas em Guerra 5, em Brasília. Também mencionou uma experiência particularmente importante: a participação em um jogo realizado no Estádio Nilton Santos, o Engenhão, no Rio de Janeiro.
Segundo Rodrigo, aquela iniciativa acabou servindo como referência para outros projetos de Airsoft realizados em estádios de futebol. Ele contou que imagens e registros do evento foram utilizados como referência por organizadores que pretendiam desenvolver experiências semelhantes em outras regiões. É um exemplo interessante de como uma iniciativa local pode inspirar novos projetos e ampliar as possibilidades de utilização de espaços para a prática do esporte.
Mais do que participar de grandes partidas, esses eventos representam oportunidades de divulgar o Airsoft, aproximar comunidades e mostrar ao público que a modalidade pode ocupar diferentes ambientes. São experiências que passam a fazer parte da memória de uma equipe e também da história do esporte brasileiro.
Nem tudo foram conquistas: os desafios enfrentados pela Divisão 9
A trajetória da Divisão 9 também teve momentos difíceis. Rodrigo relembrou um episódio ocorrido nos primeiros meses da equipe, quando começaram a circular acusações no Rio de Janeiro de que ele estaria trazendo a FAB para monopolizar o Airsoft carioca. Segundo seu relato, a situação começou após uma brincadeira feita durante um vídeo de pré-jogo e pós-jogo, em um campo que lembrava parcialmente a conhecida Vila de Furnas.
A brincadeira acabou sendo interpretada de outra maneira por algumas pessoas e deu origem a uma série de comentários e acusações. Rodrigo contou que a narrativa ganhou força entre parte dos operadores e organizadores, criando receio de que a chegada da FAB pudesse prejudicar outras iniciativas e concentrar o controle das partidas na região. Ele afirmou que as acusações não correspondiam à realidade e que nunca existiu um projeto de monopolização do Airsoft carioca.
O episódio, segundo ele, durou aproximadamente três meses e gerou questionamentos inclusive entre pessoas próximas da equipe. A situação acabou sendo esclarecida posteriormente, e alguns dos envolvidos chegaram a entrar em contato para pedir desculpas. Ao relembrar o acontecimento, Rodrigo destacou o desgaste provocado por informações que, segundo sua versão, foram divulgadas deliberadamente de maneira equivocada.
É um episódio que mostra como a construção de uma equipe dentro de uma comunidade também envolve desafios que não estão necessariamente relacionados ao esporte. Diferenças de opinião, interpretações equivocadas e conflitos podem surgir. O importante é preservar a transparência, manter os objetivos claros e não permitir que disputas pessoais definam o futuro de um projeto.
O conselho de Rodrigo para quem está começando no Airsoft
Para quem deseja conhecer o Airsoft, Rodrigo deixou orientações que merecem ser consideradas. A primeira delas é não sair comprando equipamentos logo no início. Ele recomenda procurar campos que ofereçam aluguel de equipamentos e experimentar algumas partidas antes de realizar um investimento maior. Essa é uma maneira de conhecer a modalidade, compreender sua dinâmica e descobrir quais equipamentos realmente fazem sentido para cada pessoa.
Ele destacou a importância de conversar com outros jogadores, fazer amizades, perguntar quando houver dúvidas e procurar aprender com quem já possui experiência. E existe uma orientação que merece atenção especial: os jogadores mais antigos também precisam ajudar quem está chegando. Durante a entrevista, Rodrigo contou que costuma observar o comportamento dos iniciantes durante as partidas. Quando identifica alguém cometendo um erro, procura se aproximar e explicar como aquela situação poderia ser resolvida.
Em algumas ocasiões, isso significa até abandonar uma posição estratégica para orientar alguém que está aprendendo. Ele contou que já perdeu uma oportunidade de jogo por parar para ajudar um iniciante. Mesmo depois de ser atingido, continuou explicando o que a pessoa precisava fazer. Para Rodrigo, não faz sentido observar alguém cometendo um erro e simplesmente ignorar a situação. O jogador experiente tem a oportunidade de compartilhar conhecimento e tornar a experiência de quem está começando muito melhor.
É justamente nesse tipo de atitude que os valores de uma comunidade aparecem na prática. O Airsoft precisa de novos jogadores, mas também precisa de pessoas dispostas a recebê-los.
Como Rodrigo gostaria que a Divisão 9 fosse lembrada?
Ao final da entrevista, fizemos uma pergunta que considero uma das mais importantes de toda a conversa. Como Rodrigo gostaria que a comunidade brasileira do Airsoft lembrasse da Divisão 9 no futuro? A resposta não foi sobre quantidade de inscritos, visualizações, eventos ou conquistas individuais. Ele falou sobre contribuição. “Eu gostaria que fosse lembrada como uma equipe que ajudou o crescimento do Airsoft no Brasil.”
Rodrigo reconhece que, em algum momento, a Divisão 9 poderá encerrar suas atividades. Nenhuma equipe é necessariamente eterna. Mas existe algo que pode permanecer depois que os jogos terminarem e os vídeos deixarem de ser publicados. A contribuição que deixou para outras pessoas. A ideia de que, daqui a dez anos, alguém possa olhar para trás e lembrar que a Divisão 9 participou de uma fase importante do desenvolvimento do esporte.
Que ajudou pessoas a conhecerem o Airsoft, compartilhou conhecimento, registrou experiências e contribuiu para fortalecer a comunidade. Não se trata de buscar reconhecimento individual, mas de ter a consciência de que fez parte de algo maior. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de compreender o legado de uma equipe.
Uma entrevista que também é um agradecimento
Ao encerrar esta reportagem, quero deixar registrado algo que vai além da história da Divisão 9. Rodrigo, obrigado. Obrigado pelo tempo, pela disponibilidade e pela oportunidade de conhecer melhor sua trajetória. Obrigado também pelo conteúdo produzido ao longo desses anos, pela maneira como você apresenta o Airsoft e por tudo aquilo que compartilhou com a comunidade. Quando comecei a construir o CombatGame, em 2023, ainda estava tentando entender como transformar uma ideia em realidade.
Eu tinha vontade de criar um espaço onde equipes, jogadores, organizadores e todos aqueles que fazem parte do Airsoft pudessem compartilhar suas histórias. E, naquele caminho, seus vídeos foram referências que me ajudaram a continuar. Muitas vezes, eu estava do outro lado da tela, acompanhando os conteúdos, buscando informações e aprendendo com a experiência de quem já estava no esporte havia muito mais tempo.
Talvez você nunca tenha imaginado que, do outro lado daquele vídeo, alguém estivesse encontrando motivação para seguir em frente por meio do seu trabalho. Mas foi exatamente isso que aconteceu comigo. Por isso, poder sentar diante de você, ouvir sua história diretamente e compartilhar essa trajetória com a comunidade brasileira é uma oportunidade que recebo com enorme gratidão. Esta entrevista representa algo muito especial para o CombatGame.
Não queremos apenas publicar histórias sobre equipes, equipamentos e eventos. Queremos registrar pessoas, reconhecer iniciativas e preservar experiências que ajudam a construir a identidade do Airsoft brasileiro. Afinal, o esporte não é feito apenas por quem está dentro do campo. É feito por quem organiza, ensina, produz conteúdo, compartilha conhecimento, recebe os iniciantes e trabalha para que outras pessoas também encontrem nesse universo um lugar para chamar de seu. A Divisão 9 representa uma dessas histórias.
Uma trajetória de amizade, dedicação, aprendizado e compromisso com o esporte. E, para mim, representa também a lembrança de que, muitas vezes, a voz de alguém pode ser exatamente aquilo que outra pessoa precisa ouvir para continuar. Obrigado, Rodrigo, por fazer parte da minha história no Airsoft. Que a Divisão 9 continue sua trajetória e que muitas outras pessoas encontrem, por meio do seu trabalho, os mesmos motivos que eu encontrei para continuar.
CombatGame: muito além do jogo. Uma comunidade construída por pessoas, histórias e paixão pelo Airsoft.
Preservar histórias, reconhecer contribuições e documentar a memória do Airsoft brasileiro.
